Turismo de Pombal


Festas e Eventos Anuais

Anualmente, duas festas se destacam na cidade, o Pombal Fest, que ocorre sempre no mês de Julho, em comemoração ao aniversário da cidade, em formato de carnaval fora de época. E a Festa do Rosário, que ocorre em outubro, sempre nas primeiras semanas do mês, estendendo-se aproximadamente até o dia das crianças.

Resumo

O turismo religioso representa um segmento promissor para o desenvolvimento de uma comunidade. Este trabalho traça a trajetória da formação religioso-cultural da Festa do Rosário na cidade de Pombal – PB, mostrando a riqueza da diversidade do folclore popular deste evento, analisando desde a formação da Irmandade do Rosário, a apresentação de grupos como os Negros dos Pontões, os Congos e o Reisado. Procura retratar a importância dos festejos para o povo da cidade, do ponto de vista sócio-econômico e cultural, e para o visitante que, ao participar da Festa, vivencia a identidade e a cultura popular através do enfoque na religiosidade e no profano. Finaliza propondo ações que possam acenar para o desenvolvimento do turismo religioso-cultural em Pombal, com o envolvimento da comunidade local. A religiosidade do povo brasileiro reflete as características da colonização do país, onde claramente se observa a miscigenação de crenças e crendices do índio, do negro e do branco, colonizador. Vale ressaltar que a catequese feita pelos missionários franciscanos, carmelitas, beneditinos e jesuítas, levou ao predomínio do catolicismo no Brasil, assumindo um papel dominante na história religiosa do povo brasileiro. Em Pombal, no alto sertão da Paraíba, esta religiosidade se faz presente através de manifestações de adoração a Nossa Senhora do Rosário, padroeira dos negros. Adoração esta manifestada na Festa do Rosário, com duração de nove dias, terminando no segundo domingo de outubro, com uma procissão encabeçada pelo rei e pela rainha do Rosário, seguida da celebração de uma missa campal. Esta festa é, acima de tudo, o resgate de toda uma cultura popular nordestina, com a presença de elementos culturais como a Irmandade do Rosário, os Congos, os Negros dos Pontões e o Reisado. Estes grupos folclóricos se apresentam no decorrer da festa, com suas vestes, adereços e danças, representativos de suas tradição, fé e simbolismo, tendo o negro um relevante papel neste contexto cultural, sendo a festa considerada como “dos negrinhos”. A Igreja do Rosário, exemplo raro do barroco no sertão do Nordeste, abre suas portas para receber de volta o Santo Rosário, acompanhado durante a procissão pelos grupos folclóricos e o cortejo da multidão. Os devotos mais fervorosos, geralmente aproveitam a festa, para pagar as promessas feitas a Nossa Senhora do Rosário, acompanhando a procissão com pedra ou coroa de espinhos na cabeça. No palco armado na calçada da Igreja o pároco local e demais autoridades civis e religiosas da cidade recebem a procissão com cânticos, aplausos e aclamações de “Viva Nossa Senhora do Rosário”. Paralelo às celebrações religiosas, a cidade é contagiada pelo lado profano, transformando-se numa espécie de “Las Vegas do Sertão” (Jerdivan,1997), com os mais variados jogos de azar, como roletas, laça-laça, bingos etc. O som dos alto-falantes toca melodias que são oferecidas a alguém em forma de recado. A cidade e seus filhos se enfeitam, todos vestem sua melhor roupa e calçados, para andar entre os parques, em volta da praça centenária, sentar nas barracas do cordão encarnado ou azul e, finalmente, acompanhar a procissão. Na Festa do Rosário de Pombal o sagrado e o profano, a beata, a prostituta e o bêbado convivem numa miscigenação pautada pelo respeito mútuo. A constatação deste fato, e a diversidade cultural presente neste festejo, embasada na literatura consultada, foram determinantes para a realização deste trabalho, através do qual esperamos caracterizar uma análise desta dualidade de manifestação popular religiosa cultural, e o seu papel como gestor do turismo religioso-cultural. Dentro deste contexto, objetivamos traçar a trajetória da identidade da Festa do Rosário de Pombal, e propor ações estratégicas que possam capacitar este festejo, como um atrativo turístico da Paraíba.

A Cidade de POMBAL

A cidade de Pombal está situada no alto sertão da Paraíba, a 380 km de João Pessoa. Foi elevada a categoria de cidade em 21 de julho de 1862, pela Lei Nº 68, tendo sido o primeiro município do sertão paraibano. A cidade foi edificada a seis quilômetros da confluência dos rios Piancó e Piranhas, dois grandes cursos fluviais intermitentes, que correm da serra paraibana para os confins do Ceará, e se unem ao rio Açú no Rio Grande do Norte (SEIXAS, 1962). Conhecida também como a terra de Maringá, Pombal, o mais antigo núcleo de povoamento do sertão paraibano, tem como maior acontecimento religioso a Festa dos Negros do Rosário, comemorada há mais de cem anos (ARAÚJO NETO, 1998). Rica em tradições populares, a cidade procura preservar suas tradições, através de manifestações vivas de grupos folclóricos, como os Negros dos Pontões, os Congos e o Reisado, que se apresentam, anualmente, durante a tradicional Festa do Rosário, que tem como ponto máximo o primeiro domingo de outubro, quando estes grupos se apresentam em frente à Igreja de Nossa Senhora do Rosário (MORAES, 1994).

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário

Seixas (1962) relata que da antiga capelinha de 1701, de taipa e palha, chamada de “Casa de Orações”, não existe nenhum vestígio. Em seu lugar, foi erguida a primitiva matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso, hoje denominada Igreja do Rosário, cujo início de construção data de 24 de fevereiro de 1721, com escritura lavrada pelo escrivão local, Álvaro de Lima Oliveira. Aquele documento obrigava o mestre pedreiro Simão Barbosa Moreira a construir a igreja em um período de três anos, quando seria pago, pela Confraria, a quantia de seiscentos e cinqüenta mil réis. A matriz foi erguida de pedra, barro e tijolo, com capela mor de vinte e oito palmos (1) de comprimentos e vinte de largura, e o corpo da Igreja com sessenta palmos de comprimento e trinta de largura com sua sacristia. Suas cornijas de tijolos e o telhado com beirada de cumeeira argamassada. Com a construção da igreja matriz, deve ter sido criada a freguesia sem se constituir patrimônio. Embora a construção da igreja tenha se iniciado a 24 de maio de 1721, somente em 1724 se registra a primeira doação patrimonial do terreno, feita pelo coronel Francisco Dias D´Ávila. Após a construção da nova Matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso, em 1897, a igreja primitiva passou a ser denominada de Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Aquele templo é um dos raros exemplos do barroco no sertão do Nordeste, e a data de sua edificação (1721), consta em seu frontão. Em 1897, a imagem de Nossa Senhora do Bom Sucesso foi transladada para uma nova igreja, ficando a velha destinada ao culto de Nossa Senhora do Rosário, pelos pretos. Externamente a igreja apresenta uma única torre. O monumento representa um marco histórico do primeiro núcleo do império colonial no sertão da Paraíba (SEIXAS, 1962; BENJAMIM, s/d; SOUSA, 2002).

Fachada da Igreja do Rosário.

Há no seu interior três artísticos altares esculpidos em madeira de cedro, um altar-mor central, com antigo trono da Padroeira de Pombal que, hoje, abriga a imagem de Nossa Senhora do Rosário. O altar-mor e o arco-cruzeiro da igreja, em estilo barroco romano, são painéis de fina talha e revestidos em sua maior parte, por uma camada de folha de ouro.

Altar-mor central da Igreja do Rosário.

Altar de São Miguel Arcanjo.

De acordo com Benjamim (s\d) e Seixas (1962), a Igreja do Rosário mantém o seu aspecto barroco quase intocado, toda pintada em branco, com uma só torre, frontão recortado, uma nave e uma capela lateral que se projeta para fora do prédio principal, de proporções bem acertadas. O acesso ao altar-mor é feito por poucos degraus. Há ainda quatro imagens antigas no altar-mor, entre colunatas e relevos: Nossa Senhora das Dores, Santana, São Gonçalo e São Bento. Existe um altar lateral do lado direito, com a imagem de São Miguel Arcanjo e outro do lado esquerdo, com a imagem de São Sebastião. Ambos ficam no corpo da igreja, que não tem forro, e terminam num baldaquim, com talha dourada imitando uma fina cortina com pingentes. A capela do Santíssimo Sacramento se projeta lateralmente à esquerda da igreja, separada da nave por um arco cruzeiro revestido em madeira, com pintura marmorizada. No seu interior, encontra-se um pequeno retábulo, com talha em madeira dourada em forma de volutas e folha de canto. Centralmente encontramos uma pintura em têmpera sobre a madeira, representado a Santa Ceia.. O púlpito é em madeira, com pinturas marmorizadas. Encimada na porta de acesso ao púlpito, também com pintura marmorizada, há uma safena composta por lambrequins, coroada por elementos escultórios com duas cartelas, contendo as seguintes inscrições em latim: Spiritus Sancti Gratia Iluminei Sensus et Corda Nostra, Pratica Verbum Inflaopportuné Importuné, Atque Obiecra Increpa e Inomini Pratientia et Doctriana2 (MORAES 1994, p.25-26). No batistério encontra-se pintado por artista anônimo, o “Batismo no Jordão”. O púlpito e as safenas sobre as portas e janelas laterais, apresentam talhas douradas. As talhas do púlpito, das safenas e do baldaquim de São Miguel, apresentam fino lavor e as colunatas são ornadas com motivos florais, constituindo-se em um trabalho um pouco mais grosseiro (SEIXAS, 1992).

Fachada frontal e lateral da Igreja do Rosário.

Para Moraes (1994, p.11, p.14), a fachada da igreja de Nossa Senhora do Rosário, é muito simples. No frontispício, há uma porta principal em madeira almofadada, com vergas em cantaria, encimada por duas janelas em madeira, também com vergas em cantaria, e um nicho em arco pleno vazio, onde possivelmente já abrigou uma imagem. Possui duas colunatas de sustentação, coroadas por pináculos, a cimalha arremata a parte superior, com frontão ondulado, onde se encontra uma tarja com a data da construção da igreja. O corpo da igreja é composto por uma nave única, capela-mor e sacristia. A nave não possui forro, aparecendo toda a estrutura de madeira da cobertura e as telhas aparentes. O piso de toda a igreja apresenta-se em estado original, executado em tijoleira de barro. Do lado da torre está localizado um corredor, com quatro portas que se abrem para a rua e do lado esquerdo, encontra-se uma saliência que é a capela do Santíssimo Sacramento. Após a capela, há uma sala, paralela à sacristia, com uma porta e duas janelas que se abrem para a rua. Em frente à igreja há um cruzeiro, com pedestal em pedra e cal, que serve de base para uma cruz em madeira.

Cruzeiro em Madeira.

A Irmandade do Rosário de Pombal

Em Pombal, a Irmandade é a própria festa, e lá, assim como em todo o sertão, a festa é conhecida como Festa do Rosário e não de Nossa Senhora do Rosário. De acordo com Ayala (1995), se oficialmente a efetivação da Irmandade do Rosário se deu no final do século passado, pode-se aceitar que os negros de Pombal recriaram, no sertão da Paraíba, algumas tradições afro-brasileiras, como a Irmandade, o “brinquedo” dos Congos e a realização da Festa do Rosário.

A Devoção do Rosário pelos Pretos

Em seus relatos, Benjamim (s/d), afirma que a facilidade da devoção de nossa Senhora do Rosário pelos pretos, tem sido questionada por diversos autores, assim como a propagação da mesma padroeira em diferentes localidades. Esta devoção se fundamenta no sincretismo religioso do rosário católico, com o tecebá (rosário) muçulmano. Para Artur Ramos, referenciado pelo autor, inúmeros escravos vindos de Portugal para o Brasil., “receberam em maior ou menor grau a contribuição da cultura maometana”. Registros de estudos no Rio de Janeiro, Salvador e Recife mostram que o Islamismo, no Brasil, apresentava-se sempre misturado a práticas religiosas primitivas, como o uso do tecebá pelos sacerdotes melês, pendente na cintura, com meio metro de comprimento, noventa e nove contas de madeira e terminado por uma bola, em vez de cruz, representa uma das sobrevivências culturais maometanas. Segundo Benjamin (s/d) o uso do rosário como fetiche, com virtudes mágicas próprias, representa um aspecto cultural da tradição do Rosário no Nordeste do Brasil, sendo ela exaltada na poesia popular dos folhetos sertanejos. O rosário que os sertanejos devotam, é formado por um colar de contas azuis e brancas, sem crucifixo, assim como também é sem crucifixo o Rosário de ouro da imagem de Nossa Senhora do Rosário de Pombal.

A Festa e os Grupos Folclóricos

No primeiro domingo de outubro de 1895, em uma cerimônia simples, ocorreu a primeira Festa do Rosário de Pombal. Sua celebração observa os dispositivos dos mandamentos diocesanos, com encerramento na primeira semana do mês de outubro, mais precisamente no primeiro domingo, como foi institucionalizada. Realizam-se novenas, nos nove dias que antecedem o encerramento. O sábado é dia de feira na cidade e no domingo ocorre o encerramento da festa (SEIXAS, 1962). De acordo com Ayala (1995), esta festa tem, na manifestação da produção cultural dos negros, um marco de sua identidade. Quatro grupos de cultura popular são responsáveis pela festa. A Irmandade do Rosário e três grupos de dança: os Congos, os Pontões e o Reisado. Os três primeiros grupos são conhecidos pela expressão “negros do Rosário” e atuam na festa desde a sua criação, em fins do século passado. A partir da década de 60, o Reisado incorporou-se à festa. Integram os quatro grupos, trabalhadores braçais, rurais ou urbanos, em sua maioria negros, que fazem parte do segmento sócio-econômico menos favorecido da comunidade local. No entanto, “os negros do Rosário”, ocupam um lugar de destaque na história cultural da cidade, chegando a festa a ser considerada como a “festa dos negrinhos”. Para o autor, a Festa do Rosário de Pombal pode ser enquadrada em algumas características indicadas por Hobsbawm: “Por tradição inventada, entende-se um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácticas ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento (…)”. Complementa afirmando que, a realeza negra da Festa do Rosário de Pombal, embora vinculada a uma tradição secular, é “importada”, e que remete ao passado colonial escravista, porém com valorização dos negros, ao serem elevados à categoria de reis. Esta “tradição reinventada”, pelos “negros de Pombal”, representa a reafirmação da identidade negra e, também, a negação do início de sua história só a partir de quando foram escravizados e transformados em mercadoria. As descrições dos grupos Congos, Negros dos Pontões e Reisados, seus trajes, adereços e apresentações, relatadas por Seixas (1966), Benjamim (s/d) e Sousa (2002), se assemelham e se complementam. No sábado que precede o domingo de encerramento da festa, os mesários da Irmandade do Rosário e os Negros dos Pontões percorrem a feira local, angariando donativos que serão destinados aos serviços de reparo, limpeza e manutenção da igreja de N. S. do Rosário. Conduzem lanças ornamentadas com laços de fitas multicoloridos, ao som do congo, maracás, pífanos, reco-recos e uma sanfona. Os Congos ou “pretinhos do Congo”, se apresentam apenas no domingo do Rosário, usam trajes mais exóticos, um entrecho dramático, cortejo e embaixada. Aceita tratar-se de uma versão local, ou adaptado da versão olindense desaparecida. O grupo é composto por 11 pessoas do sexo masculino, que cantam, dançam e tocam, além de um, ou dois músicos que tocam viola, com destaque para três personagens: o rei, o secretário e o embaixador. O rei é a figura central, sem nome específico, sendo tratado pelo grupo por “o reis”, tanto no cortejo como na apresentação do entrecho, porém o verdadeiro mestre é o secretário. O primeiro rei foi Mané Cachoeira. O embaixador é uma figura passiva, que ouve e responde com o coro cantando na “cabeceira”. A única personagem do sexo feminino, que acompanha o grupo, é a zeladora, tendo a função de cuidar do vestiário do grupo, lavar, passar, ajudar a vestir e arrumar os trajes e adereços antes das apresentações. É muito discreta, mas exerce grande influência sobre o grupo, fiscaliza o comportamento e principalmente os excessos no consumo de aguardente. No domingo do Rosário o grupo vai à casa do Juiz e acompanha a procissão até a igreja, assim como os demais grupos, assiste a missa e depois começa a exibição, isolado dos demais grupos, visitando as famílias mais importantes da cidade. O grupo se desloca de uma residência para outra, em duas alas, de maracás nas mãos, encabeçados pelo secretário e pelo embaixador, no centro, “o reis”, de chapéu-de-sol aberto, segurado por ele mesmo, com a mão direita. O chapéu-de-sol substitui o pálio real ou umbrela do Maracatu. Durante o cortejo, não cantam nem dançam. Ao chegar na residência escolhida para dançar pedem licença e entram para o terraço ou sala de visitas. O dono da casa afasta as cadeiras, abrindo espaço e oferece uma cadeira ao “reis” – o trono real. O “reis” senta-se no trono de frente para os dois cordões e se inicia a dança com entrecho dramático. Depois da exibição o dono da casa oferece bebidas alcoólicas, cerveja, aguardente, bate-bate e tira-gosto e dá sua contribuição em dinheiro. Eles fazem três ou quatro exibições em residências e depois se retiram da cidade. É uma honra ser visitado pelos Congos. A dança é executada em 4 passos: aboi, zabelinha, tesoura ou tesourinha e volta em cheia, e a música é produzida por maracás e marcada por vigorosos passos da dança, acompanhada de viola. Os Congos fazem as invocações iniciais, e dançam sem se preocupar com a presença do “reis”. Este, sempre ausente da cena do ponto de vista antiilusionista da apresentação, somente na sétima estrofe entra no brinquedo. A fala da embaixada e todo canto, são ditos em português estropiado e algumas palavras soltas, parece um dialeto africano, de sentido totalmente esquecido. Nas cantigas e embaixadas há referência geográfica ao Congo, à Aruanda, à Guiné e à Bahia. Os Congos se dividem em duas alas (cordões) de cinco participantes cada. Os dois cordões vestem saias rendadas brancas, por baixo uma saia de armar com um aro de arame, sob a calça comprida branca. Nos pés, sandálias sertanejas ou sapatos. Portam chapéus, afunilados, de papelão, na cor da blusa, enfeitados de espelhos, vidrilho e areia prateada.

Os Congos com seus adereços.

Os congos do cordão do secretário vestem blusas azuis e os do cordão do embaixador, encarnado. O secretário porta uma faixa encarnada sobre a blusa azul e o embaixador uma faixa azul sobre a blusa encarnada. O “reis” usa calça branca, camisa branca de colarinho, paletó preto, sem gravata e coroa na cabeça, no braço, o chapéu-de-sol. A coroa é de papelão dourado, sem detalhes. Não há cerimônia oficial de coroação do “reis”. Os Negros dos Pontões é o grupo mais numeroso do folclore do Rosário de Pombal, sem número fixo, sendo exclusivamente masculino. Exibem-se em dois cordões, encarnado e azul e calçam sandálias sertanejas rústicas ou sapatos e trazem na cabeça chapéus de palha enfeitados com fitas coloridas e lanças (pontões) semelhantes aos bordões da irmandade, mas terminados em maracás, enfeitados de fitas multicoloridas. Usam as lanças tanto para abrir caminho na multidão durante a procissão, como para fazer figurações na dança e para marcar, com o rufar dos maracás, o ritmo de suas músicas. São acompanhados por uma banda cabaçal, formada por adufe, caixa, tambor prato, fole e pífanos, alem de maracás de lanças. Os Pontões não cantam. Visitam as casas e vendas, bebendo e recolhendo dinheiro durante as exibições. Dançam com belicosidade e ao solicitar as doações em dinheiro, apontam a lança na direção do doador, deixando cair sobre seus ombros, as fitas do maracá. Assemelham-se estruturalmente a grupos folclóricos de outras regiões ligadas a devoção do Rosário (Santa Luzia, Jardim do Seridó e até os Caboclos de Lança do carnaval de Pernambuco). O chefe é chamado de “Capitão dos Pontões” e constitui a guarda do rei da Irmandade, durante as procissões. O Reisado não costuma manter uma freqüência de apresentações na Festa do Rosário. Apresentam-se com o “reis”, o secretário, o general e o Mateus. O grupo é constituído de dez a doze elementos, vestem calças brancas e camisetas com poucos bordados de vidrilhos em forma de estrelas. O rei senta-se no trono de costas para o altar-mor, conduzindo uma espada e uma coroa de papelão dourado, tendo um papel passivo durante toda apresentação. O canto faz referências a mestre e contra-guia, embora nada os distinga no grupo. A orquestra é composta por violão e pandeiro, um apito que, juntamente com o sapateado e o canto, completa a parte musical. O bailado e o canto dos reisados são bem diferentes da coreografia dos congos. O rei apresenta-se com calça branca, blusão encarnado, peitilho bordado e coberto de espelhos, coroa e espada. As figuras mais importantes são o general, o príncipe, o secretário e o Mateus (o espantalho das crianças), cada qual exibindo trajes próprios para a folgança. O entrecho dramático, pobre, narra uma revolta na corte do rei Clarião do Congo, comandada pelo secretário. O Mateus, figura diabólica, trunca o sentido das embaixadas e precipita a guerra. Ao final, morrem o “reis” e o secretário, sobrevivendo o Mateus e o general. O Mateus é consultado sobre a duração da guerra e verifica as horas em seu relógio sem ponteiros (uma velha lata de óleo comestível)…A seqüência é encerrada com uma exaltação cívica da bandeira brasileira. O Reisado de Pombal é o grupo mais arredio, assemelhando-se mais ao reisado alagoano descrito por Abelardo Duarte (SEIXAS,1962; BEJAMIN, s/d e ARAÚJO, 1997).

As Procissões

O primeiro domingo de Outubro é o grande dia da festa do Rosário. Todo o povo da cidade e seus visitantes, aos poucos, vão se concentrando em frente à casa do Rosário, patrimônio de Nossa Senhora do Rosário para, em procissão, trazer de volta para a igreja o Rosário de Nossa Senhora. Em seu trabalho Benjamim (s/d), descreve a participação dos grupos folclóricos, iniciando pelo sábado, que antecede o grande domingo do Rosário, quando, após a feira ao entardecer, os grupos folclóricos, devidamente uniformizados, ingressam na igreja e se apresentam na capela-mór. Quando a Irmandade está toda reunida e a igreja lotada pelos devotos, celebra-se uma missa ao som de zabumbas, adulfes, pífis e maracás. Após o encerramento da liturgia, o rei, a rainha, o padre, a Irmandade e os grupos folclóricos recebem o Santo Rosário e conduzem em uma salva de prata, coberta de rendas, acompanhado pela procissão de fiéis, para a casa do Juiz-Rei da Irmandade.

O Santo Rosário.

O rei traja uma calça azul escuro, camisa branca de mangas compridas e sobre a mesma, um corpete de cor azul celeste, na mão traz um cajado ornamentado de flores, numa evocação ao cajado de São José, e na cabeça, a coroa real. A rainha veste um vestido cor-de-rosa, usando na cabeça um véu curto sobre o qual assenta uma coroa. Os negros dos Pontões abrem o cortejo à frente da Irmandade, com suas lanças-maracás enfeitadas com múltiplas fitas coloridas, seguidos pelos congos e uma banda de música. A multidão de fiéis atravessa becos e ruas até a rua do Rosário, onde os pontões se postam à porta da casa do Juiz-Rei da Irmandade, e cruzam as lanças para o cortejo passar. No interior da humilde casa, está armado um pequeno altar, onde o Rosário é depositado e passará a noite sob a vigília da Irmandade, que rezam sucessivos rosários e cantam benditos. Os devotos, aos poucos, ingressam na casa, se ajoelham diante do altar e beijam o Rosário. Segundo Sousa (1993), a procissão do domingo do Rosário, inicia-se as 8:00 horas da manhã, quando uma grande multidão vai se concentrando em frente à casa do Rosário. A Irmandade abre o cortejo, com uma grande cruz azul, acompanhada do padre da freguesia.

A Irmandade do Rosário.

Os irmãos trajam opas azuis e brancas e se organizam em dois cordões, tendo ao centro o Rei e a Rainha, que conduzem o Rosário. Em meio à multidão, os Negros dos Pontões abrem o caminho, enquanto os congos e a banda de música fecham o cortejo.

Os Negros dos Pontões abrindo o cortejo.

Vale ressaltar a presença dos devotos, que vão pagar suas graças e promessas alcançadas, e acompanham a procissão com coroas de espinhos e pedras na cabeça, ou vestidos de São Francisco, com pés descalços e outras estranhas formas de demonstração de fé.

Os Pagadores de Promessas.

Ao chegar a igreja, o Rei e a Rainha, sobem ao palanque armado na calçada, o padre concede a “Benção do Rosário”, e o Rosário é colocado pelo Rei e pela Rainha na imagem de Nossa Senhora do Rosário.

O Rei e a Rainha do Rosário no altar.

Imagem de Nossa Senhora do Rosário.

Os sinos da igreja tocam, e a multidão se ajoelha sobre o calçamento, se curva e reza em agradecimento. Muitos choram de emoção. É celebrada a missa campal e, após o ato litúrgico, os penitentes depositam as coroas de espinho de mandacaru, pedras e demais objetos de promessa ao pé do Cruzeiro da Igreja.

O Profano

A Festa do Rosário simboliza o encontro máximo dos pombalenses. Neste período, as ruas da cidade se transformam. Parece até que se vestem de uma aura mística que acende os corações dos moradores e dos filhos de Pombal, mesmo os que moram em outras localidades. Não importa onde residam, todos se encontram durante a Festa. Segundo Araújo (1997), os que, pelos mais diversos motivos tiveram que sair da cidade, retornam exatamente nesta época, porque sabem que ali vai ocorrer uma oportunidade de reencontro e de matar a saudade: “Como se fosse combinado, é assim que acontece”. A presença do Parque Maia é garantida, com suas rodas gigantes, carrossel, canoas e demais brinquedos, sendo atrativos constantes, e embora se faça presente anualmente, é sempre como se fosse a primeira vez. Na descrição do autor, todos os tipos de jogos de azar, condenados pela igreja, também têm seu espaço garantido, assim como a barraca de tiro ao alvo, o vendedor de bexigas, de abacaxi e até o Seu Otacílio da Gelada, que toca o Hino Nacional nas garrafas coloridas de corantes. Poetas de rima pobre e idéia rica são constantes na Festa. As barracas de palha que circundam a praça do Bar Centenário vendem os mais variados tipos de bebidas e tira-gostos. As músicas, tocadas pelo som do Parque Maia, são oferecidas de alguém para alguém. As crianças são uma preocupação financeira para os pais, pelo que gastam nos parques e demais brinquedos (chibatinha, bola de sopro, réu-réu etc). No domingo do Rosário, à noite, grande parte dos filhos de Pombal que moram em outras localidades, embarcam em um ônibus e retorna às suas cidades, com a certeza de um novo reencontro, no primeiro domingo de outubro do próximo ano. Assim é a Festa do Rosário de Pombal, um evento que reúne milhares de fiéis, devotos de Nossa Senhora do Rosário, e que sobrevive à modernidade (Araújo, 1999).

A Festa como Atrativo Turístico

O turismo religioso representa um segmento importante para o desenvolvimento de uma localidade, fato que pode ser comprovado a nível internacional, como a cidade de Lourdes na França, Fátima, em Portugal e Santiago de Compostela, na Espanha. A nível nacional, podemos citar Aparecida em São Paulo e Juazeiro do Norte ou do Padre Cícero, no Ceará. A manifestação do sagrado representa uma realidade reproduzida pelos homens para se entender e se explicar a si mesmos, e a peregrinação é para o devoto o exercício da religião. Diferentemente de outros tipos de viagem, na romaria os devotos, quando partem para um centro religioso, já o fazem na expectativa do que desejam encontrar. Como padrão de turismo religioso, a cidade santuário de Lourdes, na França, é um exemplo notável, não só pela veneração à natureza, assim como por sua infra-estrutura, de forma planejada ou espontânea. Há uma integração entre as instituições religiosas e a política pública, para fornecer o melhor para os peregrinos e turistas religiosos (ROSENDAHL, 1998) Para Araújo (1997), com a escassez da agropecuária, as cidades do interior estão descobrindo nas chamadas “festas do interior”, uma saída para a crise financeira, fazendo com que os administradores municipais usem de toda criatividade para driblar a crise. Assim é que Campina Grande tem o maior São João do Mundo; Guarabira, a Festa da Luz; Cajazeiras o Forrofest; Pilar, o tamarineiro de Augusto dos Anjos; Sousa, o Vale dos dinossauros; e “Pombal tem… a Festa do Rosário”, primeiro encontro folclórico da Paraíba, um dos mais tradicionais representantes da Irmandade dos negros do Rosário existentes no Nordeste brasileiro. Ainda na visão do autor, a festa deveria ser mais valorizada, visto que os grupos folclóricos, como os Negros dos Pontões, não são “negrinhos” dançando, mas sim representações autênticas da mais rica e original cultura afro-brasileira, além de já terem chamado a atenção de vários pesquisadores, por ainda existir esse tipo de manifestação em Pombal. A realeza dos Congos e do Reisado, tradições da cultura africana, com certeza, deveriam ser mais exploradas turisticamente, acabando com o amadorismo e fazendo desta festa uma forma de redenção para a cidade. Apesar de mais de cem anos de tradição, a festa é realizada de forma amadora, sem divulgação, estrutura e apoio da imprensa televisa ou escrita. Necessário se faz que os administradores públicos, os comerciantes da cidade e a comunidade em geral, entendam que o turismo não se restringe apenas à simples visitação de “pessoas esquisitas” à cidade. Para Ayala (1995), a festa do Rosário de Pombal é o evento anual mais importante da cidade, à semelhança do São João no Nordeste, tendo uma enorme importância na vida local do ponto de vista sócio-econômico e político. É um evento muito concorrido, tanto quanto às atividades lúdicas, aos brinquedos populares, parques de diversões, barracas de comidas típicas e bebidas, quanto ao comércio e as manifestações religiosas. De acordo com Pereira, citado por Araújo (1997), a Festa do Rosário de Pombal, é algo que precisa ser vista “com olhos de turista”, como diria Graciliano Ramos. Esta tradição secular, que se mantém acesa nos corações de seu povo, é o evento anual de registro da história de Pombal. Todos desligam suas TV, fecham suas casas durante os três últimos dias da festa e vão para a rua. Muitas donzelas (virgens), perdem sua virgindade por trás dos muros e entre os becos da cidade, algumas engravidam, outras aproveitam a festa para fugir com os namorados. Enfim, a Festa do Rosário de Pombal, pelo potencial de sua tradição, é motivo de orgulho e um marco na vida dos pombalenses. Resgata elementos da cultura nordestina, com seus grupos folclóricos, a feira com vendedores de folhetos, artesanato de cerâmica e tudo o mais que se possa imaginar. Durante os dias da festa, tudo é magia, e leva os que dela participam a se deixar conduzir pelo fantástico e poético da sua sedução. Segundo Araújo (1997), esta festa, traz imagens de um grande circo, de criaturas românticas: seresteiros, sanfoneiros, cantadores de viola, bêbados, prostitutas, e bonitas donzelas com vestidos estampados.

O Turismo

O turismo religioso-cultural é um segmento já consolidado em algumas regiões do Brasil, e que aponta como alternativa promissora para o desenvolvimento turístico de uma localidade. O sagrado e o simbolismo do misticismo fazem parte da vida do homem desde os primórdios da humanidade. Assim é que ele sempre busca expressar suas crenças, através das mais variadas formas, constituindo-se sobretudo em nosso país, de um sincretismo religioso de grande riqueza cultural. Em países como a França, Portugal e Espanha, é notório o papel do turismo religioso como fonte de dividendos. Em nosso país, Aparecida e Juazeiro do Norte se destacam neste segmento, enquanto outros centros estão surgindo, como O Caminho das Águas no interior de São Paulo e na Paraíba, se tem conhecimento de peregrinação à Cruz da Menina em Patos. Será que apenas estas manifestações, despontam para o turismo religioso em nosso Estado? Ou será que falta planejamento e divulgação de outros focos de grande manifestação do sincretismo religioso? Com base na bibliografia pesquisada, constata-se que a Festa do Rosário de Pombal representa um ícone da manifestação religiosa-cultural do povo brasileiro. Estudada por diversos autores, por sua singularidade de representação da religiosidade, com folguedos populares característicos da miscigenação do nosso povo. Chama a atenção pela sua temporalidade, com mais de cem anos de manifestação, pela dualidade do sagrado e do profano e pela preservação de sua história e identidade. Neste trabalho, foi realizada uma trajetória histórica, religiosa e cultural da Festa do Rosário de Pombal, para contextualizar a importância da Festa, tanto como manifestação de uma tradição que deve ser conservada e preservada como, também um atrativo que deve ser explorado. Deste modo, esperamos contribuir para a divulgação de tão rica manifestação popular, e acenar com algumas propostas para o desenvolvimento do turismo religioso-cultural na cidade de Pombal.